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O que levo na bagagem para a EuroShop e o que trago de volta para o Brasil

Por Kátia Bello

Por que a EuroShop é um compromisso

A cada três anos, faço questão de estar presente na EuroShop, em Düsseldorf. É um compromisso que mantenho há cerca de duas décadas. Fazendo as contas, devo estar indo para a minha sétima edição. E existe uma razão muito clara para essa fidelidade: quando um evento acontece nesse intervalo, ele permite que a indústria amadureça ideias, desenvolva soluções e apresente inovações realmente consistentes.

Uma imersão no varejo global

A EuroShop não é apenas uma feira. É a maior do mundo no segmento de varejo. São pavilhões e mais pavilhões dedicados a tudo o que estrutura, movimenta e transforma uma loja: refrigeração, iluminação, mobiliário, tecnologia, sinalização, design, sistemas construtivos, manequins, automação, softwares e hardwares. É uma imersão completa no que está sendo pensado e desenvolvido para o varejo global.

O que levo na bagagem: perguntas, radar e senso crítico

É exatamente por isso que eu vou. Minha expectativa é sempre múltipla. Quero ver lançamentos, entender o que evoluiu desde a última edição, identificar o que mudou de direção e perceber se há alguma ruptura — ou alguma disrupção capaz de alterar profundamente um setor específico.

Onde eu coloco foco

Há áreas que acompanho com atenção especial. O pavilhão de refrigeração, por exemplo, é impressionante e especialmente relevante para supermercados. A feira é o lugar do mundo onde mais se vê inovação nesse segmento. Empresas brasileiras também frequentam o evento para se atualizar e compreender os movimentos globais.

O Design Village é outro ponto de parada obrigatória, assim como as áreas de tecnologia aplicada ao varejo. Na última edição, por exemplo, havia robôs voltados à otimização de custos operacionais nas lojas. Sempre há novidades em iluminação, gôndolas, equipamentos, sistemas modulares e soluções construtivas.

Não é só sobre o “novo” — é sobre validar o que já fazemos no Brasil

Mas não vou apenas em busca do novo. Vou também para validar o que já estamos fazendo no Brasil. Muitas vezes, percebemos que o nosso varejo está absolutamente alinhado e, em alguns casos, até à frente de tendências internacionais. A globalização encurtou distâncias. Hoje, a inovação circula com muito mais velocidade.

Ir à feira é importante. Ir em grupo é ainda mais.

Costumo viajar com clientes e parceiros: supermercadistas, executivos do varejo e profissionais de diferentes áreas. Quando um cliente olha para uma solução, ele enxerga imediatamente como aquilo se aplicaria ao seu negócio específico. O olhar dele é diferente do meu — e essa troca é extremamente rica.

Além disso, aproveitamos a viagem para fazer visitas técnicas a lojas na Europa. Ver a tecnologia aplicada na prática, observar layouts implantados e entender como a experiência se traduz no dia a dia operacional complementa a feira de maneira decisiva.

O que trago de volta: repertório que vira solução

Ao longo desses 20 anos, muitas referências que vimos primeiro na EuroShop acabaram se consolidando no Brasil. Um exemplo marcante foi o LED. Quando vi essa tecnologia pela primeira vez na feira, as lojas brasileiras ainda utilizavam majoritariamente lâmpadas fluorescentes. Conseguimos antecipar discussões com clientes, apresentar a tendência e mostrar que, mesmo que naquele momento o investimento fosse mais alto, em pouco tempo se tornaria viável — e depois, padrão.

Esse é um dos papéis mais importantes de participar de um evento como esse: enxergar o que está em desenvolvimento no varejo mundial e preparar o mercado brasileiro para absorver essas transformações no tempo certo.

Nem sempre a inovação cabe imediatamente no orçamento. Mas, quando sabemos que ela é consistente e tende a ganhar escala, podemos orientar o cliente estrategicamente. Isso vale para materiais, tecnologias, layouts e até para modelos operacionais.

A loja física mudou — e a arquitetura mudou com ela

O varejo mudou. E a arquitetura mudou com ele. Hoje, montar uma loja física apenas para expor produtos não faz mais sentido. A simples transação de compra pode ser feita online, com mais conveniência e, muitas vezes, com menor custo operacional. A loja física precisa justificar sua existência.

Ela deixou de ser apenas um edifício que abriga prateleiras. Tornou-se um espaço de conexão, experiência e construção de marca. A jornada do consumidor é muito mais complexa, multicanal e fluida. O cliente tem inúmeras opções de compra. Então, por que ele sairia de casa?

Porque a loja física entrega algo que o digital não entrega sozinho: experiência sensorial, relacionamento, experimentação e pertencimento.

Prova disso é que muitas marcas que nasceram no online abriram lojas físicas justamente para fortalecer a experiência de marca. Não é uma disputa entre físico e digital — é integração.

Integração, omnichannel e layouts flexíveis no meu radar

Não enxergo o espaço físico competindo com o digital. Vejo integração. Já desenvolvemos projetos em que a loja física incorpora totens digitais para ampliar o sortimento. Nem todos os produtos de uma categoria cabem fisicamente na área disponível, mas o cliente pode acessar o portfólio completo ali mesmo, dentro da loja. Arquitetura e tecnologia nascem juntas. Ambas estão a serviço da experiência do cliente. Não faz sentido pensar uma sem a outra.

E esse é um dos temas que levo no radar para esta edição: layouts flexíveis, lojas modulares, omnichannel e tecnologia integrada. Já vimos esses conceitos em edições anteriores. Agora quero observar como evoluíram e, principalmente, como estão sendo implementados na prática.

Projetar loja hoje é, antes de tudo, projetar performance

Projetar uma loja hoje é, antes de tudo, projetar performance. A estética é fundamental: comunica marca, posicionamento e proposta de valor. Mas o projeto precisa, acima de tudo, melhorar indicadores operacionais.

Um bom desenho de loja pode reduzir custos com equipe, facilitar fluxos, otimizar abastecimento, melhorar exposição e giro de produtos. Pode, inclusive, diminuir a necessidade de mão de obra — algo extremamente relevante em um cenário em que formar e manter equipes é cada vez mais desafiador.

O projeto arquitetônico também impacta diretamente o investimento inicial. Um planejamento adequado evita retrabalho, desperdícios e escolhas equivocadas de sistemas construtivos. Uma especificação correta — nem mais, nem menos do que a operação exige — racionaliza custos tanto na obra quanto na operação.

Já vi supermercados utilizarem sistemas pensados para residências. O resultado? Não resistem um mês ao ritmo intenso de funcionamento. Cada operação tem suas especificidades — e o projeto precisa respeitá-las.

O que eu espero encontrar — e por que isso importa

Espero encontrar evolução na EuroShop: em refrigeração, em iluminação, em sistemas construtivos, em gôndolas, em tecnologia embarcada e em automação. Espero encontrar soluções que tornem as lojas mais eficientes, mais sustentáveis e mais flexíveis. Mas, acima de tudo, espero voltar com repertório ampliado.

Porque é isso que a EuroShop me proporciona há 20 anos: repertório. E repertório é o que nos permite adaptar tendências globais à realidade brasileira com inteligência, sensibilidade e estratégia.

Vou para observar, questionar, trocar e aprender. E volto para transformar tudo isso em soluções concretas para os nossos clientes, ajudando o varejo brasileiro a evoluir não apenas em estética, mas em performance, experiência e integração.

Kátia Bello é CEO da Opus Design.

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